Memórias do Arraiá

24 de julho de 2018

O fotógrafo, Jesser Oliveira, fotografou o Arraiá Calça-Curta 2018, apenas em preto e branco. As fotos viraram memórias, em forma de textos, nas mãos de alguns amigos do fotógrafo. Hoje publicamos a quarta memória.

A ciranda dos cangaceiros

Já era São João nas terras de Canabrava e todo caboclo já tinha se ajeitado e procurado sua dama para, ao redor da fogueira, dançar um baião e aquecer o frio que se abatia sobre aquela noite formosa. Sobre os paralelepípedos da Ruy Barbosa e sob os galhos de suas algarobas, onde outrora havia a agitação dos feirantes, agora se sentia a vibração do arraiá que ia esquentando, madrugada a dentro, os corações dos forrozeiros. Não obstante a friagem invernal, os distintos caboclos mantiveram-se de calças curtas, enquanto o vento gélido sacudia as bandeirolas verde-amarelas em sincronia perfeita com as saias arredondadas de suas senhoras.

Mas eis que, em meio a tão alegre festejo, ouve-se o estrondo de um tiro e um forte grito ecoou na extensão de toda a praça: – Aqui quem manda é os cangacêro!

Todos ficaram estarrecidos ao ouvirem brado tão terrível. Como haveria de ter cangaceiro por ali, se ninguém mais ouviu falar deles desde que foram regadas com o sangue de Corisco as veredas de Canabrava? Balburdiou-se o arraiá em gritaria e correria! A multidão foi se dispersando, ao ponto que se formou um vácuo no meio da praça e, a um novo comando, novamente, o forró começou.

Toda a quadrilha do cangaço foi tomando lugar no centro e todo o povo admirou-se quando viu o grande milagre acontecer: a ciranda dos cangaceiros! Passo dentro, passo fora, gira-saia, gira-mundo, gira-roda! – Como assim? Cadê os tiros, as facadas e o sangue? Interpelou uma das notáveis damas da cidade. Mas ninguém lhe deu resposta.

Todos ficaram boquiabertos ao perceberem que naquela ciranda, as cartucheiras, que chacoalhavam no ritmo do fole, estavam abastecidas de amor, os revólveres munidos de paz, as peixeiras cortavam ao meio todo ódio que aparecesse, as palavras malditas viraram cantigas de roda e a marcha ofensiva mudou-se em xaxado das chinelas! O povo presente permaneceu admirado com mistério tão intrigante!

Nas terras de Canabrava, na noite de São João, todo calça-curta deslumbrou-se cirandeado com o cangaceado modo de dançar e viver! Nunca mais o estampido dos tiros, nunca mais o tinido das facas, nunca mais o chacoalhado das cartucheiras e nunca mais a marcha de guerra. A alegria não apenas foi cangaceada, como também foi canabraveada para sempre naquele lugar!

Foto: Arraiá Calça-Curta 2018 em preto e branco, Ciranda dos Cangaceiros, por Jesser Oliveira
Texto: Ciranda dos Cangaceiros, por Cláudio Gonçalves, seminarista Católico

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